1977: criação do GEPAN em Toulouse
Em 1º de maio de 1977, o Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES) inaugurou um novo departamento em Toulouse, o GEPAN — Grupo de Estudos de Fenômenos Aeroespaciais Não Identificados. Seu primeiro diretor, engenheiro Claude Poher, é astrônomo formado na École Polytechnique, formado no CNRS e no departamento de balística do CNES.
Esta criação é única no mundo: nenhum outro poder possui um órgão público, vinculado à sua agência espacial, dedicado ao estudo de observações de objetos aeroespaciais não identificados. Os Estados Unidos tiveram a Projeto Livro Azul (USAF, 1952-1969), encerrada oito anos antes. O Reino Unido teve um Mesa de OVNI no Ministério da Defesa, mas sem dimensão científica pública. A França faz a aposta oposta: um serviço aberto, científico e publicado.
O mandato inicial do GEPAN, validado pela diretoria do CNES, é triplo:
- Coletar testemunhos de observações de UAP (fenômenos aeroespaciais não identificados) em território francês.
- Analise esses depoimentos com uma metodologia científica rigorosa.
- Publique as descobertas de forma transparente.
GEPAN → SEPRA → GEIPAN: três nomes, uma missão
A organização teve três nomes sucessivos, refletindo a evolução do seu escopo:
O período SEPRA (1988-2005) corresponde a uma ampliação do mandato: além das observações de objetos não identificados, o serviço se encarrega da perícia de reentrada atmosférica de detritos espaciais em território francês. Esta habilidade será valiosa: é a SEPRA que identificará, em 1990, o dia 5 de novembro como a reentrada de um estágio Proton-K (veja nosso artigo dedicado).
Em 2005, sob a liderança deYves Sillard (então diretor), a organização é renomeada GEIPAN. O “eu” para “Informação": a missão da comunicação pública torna-se central. Foi a partir de 2007 que o GEIPAN publicou online, no geipan.fr, todos os seus arquivos de investigação — ainda únicos no mundo para um órgão oficial.
A metodologia: classificação A/B/C/D
Cada depoimento que chega ao GEIPAN — através da Gendarmaria Nacional, da Aviação Civil (DGAC), da Força Aérea, dos radares militares ou diretamente através de formulário online — é analisado segundo uma metodologia pública em quatro categorias:
Dos cerca de 600 a 800 depoimentos recebidos a cada ano, a distribuição típica é:
- Classe A: ~30% — Satélite Iridium, ISS, balão, avião, estrela cadente, estrela, planeta Vênus, lanternas tailandesas.
- Classe B: ~30% — provavelmente um fenómeno identificado, mas sem certeza formal.
- Classe C: ~35% — dados insuficientes para concluir (apenas uma testemunha, sem duração precisa, sem testemunhas independentes).
- Classe D: 3 a 5% — inexplicável apesar de uma investigação completa.
⚠ O verdadeiro significado de “Classe D”
Um caso de classe D não significa não “evidência de origem extraterrestre”. Isso significa: após investigação completa, nenhuma das hipóteses naturais conhecidas pode ser comprovada. As classes D permanecem abertas — podem ser reclassificadas caso surjam novos elementos.
Os casos icônicos atendidos pelo GEPAN/GEIPAN
Alguns arquivos de Classe D construíram a reputação científica da organização:
Transen-Provence (8 de janeiro de 1981)
Renato Nicolaï, mecânico, vê um objeto cinza metálico pousando em seu jardim em Trans-en-Provence (Var). O objeto decola alguns segundos depois. O GEPAN, alertado pela gendarmaria, colheu amostras de solo e queimou plantas. As análises, em parte realizadas no laboratório de fitofarmacologia do INRA, mostram alterações bioquímicas na clorofila em folhas de alfafa espalhadas pelo local. A investigação concluiu que “um fenómeno de origem desconhecida depositou no solo uma massa de 4 a 5 toneladas”. Classe D.
Cussac (29 de agosto de 1967)
Duas crianças pastoreando vacas veem uma esfera de metal pousar, então quatro “seres” emergem. O irmão e a irmã (13 e 9 anos) dão relato corroborado, sem antecedentes. As vacas são encontradas em pânico. O GEPAN retomou a investigação em 1978, dez anos após os acontecimentos. Classe D.
Valensole (1º de julho de 1965)
Maurice Masse, um fazendeiro, vê um objeto ovóide em seu bosque de lavanda e duas entidades humanóides. O solo é analisado: revela modificações químicas e uma crescimento retardado de lavanda na zona de pouso há vários anos. Classe D.
✓ O que torna estes casos excepcionais
- Testemunhas identificadas, sem antecedentes psiquiátricos.
- Amostras de materiais disponíveis (solo, plantas, fragmentos).
- Análises científicas publicadas em âmbitos institucionais (INRA, CNES, laboratórios universitários).
- Conclusões de análises que não podem ser reduzidas a uma explicação convencional comprovada.
Com quem o GEIPAN trabalha — o ecossistema institucional
GEIPAN não trabalha sozinho. Conta com uma rede de parceiros institucionais que lhe transmitem os seus dados:
- Gendarmaria Nacional : qualquer soldado ou testemunha civil que relate um UAP estabelece um relatório pela gendarmaria. Estes minutos são transmitidos criptografados ao GEIPAN. Mais de 20.000 relatórios foram arquivados desde 1977.
- Direcção Geral da Aviação Civil (DGAC) : transmite relatórios feitos por pilotos comerciais e controladores de tráfego aéreo.
- Força Aérea e Espacial : transmite detecções de radar atípicas quando são desclassificáveis.
- Météo-França : consultado para interpretar fenômenos climáticos incomuns.
- CNES Toulouse : suporte científico, cálculo orbital, identificação de reentrada atmosférica (habilidade herdada da SEPRA).
- Polícia Nacional : para áreas não abrangidas pela gendarmaria.
- NORAD através da cooperação internacional : elementos orbitais de satélites e detritos.
Esta integração institucional distingue a GEIPAN de organizações privadas ou associativas (Belga SOBEPS, Americana MUFON, Britânica Strange Phenomena Investigations). Em França, a comunicação oficial de um PAN passa por um agente ajuramentado.
O site geipan.fr: transparência como método
Desde 2007, o GEIPAN coloca online geipan.fr todos os seus arquivos de investigação. Até o momento, mais de 1.700 casos estão disponíveis publicamente, com:
- O relatório inicial da gendarmaria (anonimizado).
- Os elementos de investigação recolhidos (depoimentos adicionais, análises técnicas).
- A classificação e justificativa A/B/C/D.
- Fotografias, mapas, trajetórias reconstruídas quando existem.
Esta política de transparência é deliberada. Tem vários objetivos:
- Permitir críticas científicas : qualquer pesquisador independente pode verificar a análise do GEIPAN.
- Evite teorias da conspiração : não há nada escondido, tudo está publicado.
- Pedagogia : mostram que 95 a 97% dos relatórios têm uma explicação convencional identificável.
- Pesquisa científica : permite agregação estatística em casos inexplicáveis.
O atual diretor do GEIPAN, Vicente Costes (desde 2023), confirmou em diversas entrevistas que esta política de transparência será mantida e ampliada. O GEIPAN permanece, em 2026, a única organização oficial do mundo dedicada ao estudo de UAPs ainda em atividade.
✓ Por que o GEIPAN é importante para o debate sobre OVNIs/OVNIs
- Prova que um Estado pode conduzir uma investigação séria sobre o assunto sem cair no ridículo.
- Fornece um quadro estatístico rigoroso: 3 a 5% de casos não identificados, nem mais, nem menos.
- Serve de modelo para iniciativas mais recentes — nomeadamente aAARO do Pentágono (2022) que se inspira abertamente na metodologia francesa.
- Mantém aberto um arquivo que muitos outros países preferiram encerrar.
Fontes e leituras adicionais
- GEIPAN — site público oficial, banco de dados completo de casos arquivados — https://www.cnes-geipan.fr/
- Claude Poher - “Fenômenos Aeroespaciais Não Identificados”, 1977 (relatório de fundação do GEPAN)
- Yves Sillard - “Fenômenos Aeroespaciais Não Identificados – Um Desafio para a Ciência”, Le Cherche Midi, 2007
- Jean-Jacques Vélasco – “OVNI, o óbvio”,Robert Laffont, 2007
- Relatório GEPAN 1981 — Nota técnica n°16 sobre Trans-en-Provence (CNES, acessível aos investigadores)
- CNES — Arquivo institucional, organização e mandato do GEIPAN — https://cnes.fr/
- AARO — Gabinete de Resolução de Anomalias em Todos os Domínios, menção à metodologia GEIPAN — https://www.aaro.mil/
- INA — RTBF/França 2 arquivos audiovisuais sobre GEIPAN, 1977-2024